Entrevista sobre o livro Tesouros da Índia para a civilização
sustentável
05-05-2003
Perguntas e respostas sobre o livro
Tesouros da Índia para a civilização sustentável,
de Maurício Andrés Ribeiro.
Editora Rona 2003
Produção de Santa Rosa Bureau Cultural
TEMA 1- RELAÇÕES BRASIL ÍNDIA
Qual o objetivo do livro “Tesouros da Índia”?
O objetivo do livro é divulgar conhecimentos sobre a Índia,
para ajudar a construir uma linha de cooperação e uma
ponte entre a civilização indiana e a brasileira. O livro
propõe abandonar preconceitos e olhar para a Índia com
uma visão aberta. No Brasil, há um misto de rejeição
e atração pela Índia. A rejeição
se deve à miséria e à aparente incapacidade daquele
país de suprir as necessidades básicas de sua população.
Cinco séculos após o impulso dado à globalização
pelas grandes viagens de descobrimento, o livro propõe ser necessário
retomar o caminho das Índias.
Como Você avalia o nível de informação sobre
a Índia, no Brasil?
A imprensa brasileira focaliza tópicos isolados da Índia,
quase sempre a partir de informações de segunda mão
ou de interpretações de autores estrangeiros, o que causa
uma percepção equivocada. O brasileiro, que convive com
a crescente disparidade entre ricos e pobres, desconhece que, na Índia,
as disparidades econômicas diminuíram gradualmente nas
últimas décadas, chegando a ser menores que no Brasil.
Os índices de violência urbana e rural são muito
menores na Índia do que no Brasil. Tais temas precisam ser mais
bem conhecidos.
Como a Índia tem lidado com as desigualdades econômicas?
A Índia tem reduzido gradualmente suas desigualdades sócio-econômicas.
A apropriação pelos indianos mais ricos da riqueza nacional
vem decrescendo nas ultimas décadas, enquanto os mais pobres
têm aumentado a sua participação nessa riqueza.
Gradualmente, os 20% mais pobres da população indiana
aumentam sua participação na renda: de 4% em 1960, passaram
para 5% em 1970; em 1983 chegaram a 8,1% e, em 1993, a 8,8%. No topo
da pirâmide de renda, os 5% mais ricos detinham 27% em 1960, percentual
que caiu para 25% em 1970. Entre 1970 e 1983, quase dobrou o número
de pessoas que compartilham um quarto da renda nacional, no topo da
pirâmide social indiana. No Brasil a tendência é
oposta: em 1960, os 5% mais ricos recebiam 23% da renda nacional; em
1970, já detinham 27%. Os 10% mais ricos detinham, em 1983, 46,2%
da renda, quase o dobro dos 10% mais ricos na Índia. Os brasileiros
precisam conhecer como os indianos têm conseguido superar as desigualdades.
Celso Furtado observa que quando estudamos países como a Índia,
vemos o muito que pode ser feito com recursos limitados.
Como é a situação do Brasil e da Índia
quanto à violência?
Há muito menos violência e insegurança na Índia
do que nas cidades e áreas rurais brasileiras. Alguns indicadores
numéricos atestam isso: para cada 100 mil habitantes, 36,6 são
assassinados no Rio de Janeiro e 26 em São Paulo. O índice
de assassinatos em Chennai, Mumbai e Calcutá é muito mais
baixo: apenas 1,1 assassinatos para cada 100 mil habitantes; o mais
alto da Índia é o de Nova Délhi, que atinge 4,1,
ainda assim várias vezes inferior ao índice de violência
nas cidades brasileiras. As políticas econômicas e sociais
que reduziram as desigualdades colaboram para os baixos níveis
de violência nas cidades indianas.
O Brasil agravou a injustiça social, descuidou dos valores humanos
e como conseqüência sofre intensa violência urbana
e rural, com os assassinatos de líderes políticos ou de
movimentos populares, invasões e conflitos armados. No campo
da paz e da não-violência é proveitoso conhecer
a experiência indiana e aprender com ela. O Brasil precisa desenvolver
tecnologias de não-violência.
Historicamente, como foram as relações indo-brasileiras?
O Brasil se beneficiou enormemente das riquezas naturais da Índia.
O rebanho bovino brasileiro é, em sua maior parte, de origem
indiana, a partir de matrizes importadas desde o século XIX.
O banco de biodiversidade indiano é muito importante para a pecuária
brasileira. Atualmente os fazendeiros importam sêmen bovino da
Índia para melhorar geneticamente o rebanho brasileiro. O Brasil
importou as mangueiras, que se aclimataram à natureza brasileira,
e o coco 'da Bahia', proveniente dos coqueirais de Goa ou Kerala, onde
aportou Vasco da Gama. Adotamos a pimenta e as especiarias que influenciaram
a culinária baiana, entre muitos outros exemplos. Durante a ditadura
de Salazar, o Brasil cuidou dos interesses portugueses na Índia.
Depois da independência de Goa, tornaram-se mais fáceis
as relações do Brasil com a Índia.
Quais as principais semelhanças e diferenças entre a
Índia e o Brasil?
A Índia e o Brasil tem problemas sociais semelhantes, tais como
pobreza e desigualdades. A densidade demográfica na Índia
atinge cerca de 311 habitantes por km², enquanto no Brasil ela
é de 20 habitantes por km². No Brasil, as migrações
internas são muito freqüentes e seria desejável estimular
a consolidação de uma rede de assentamentos menos dependentes
de insumos externos e de energia. Em 1822, o livro Projetos para o Brasil,
de José Bonifácio de Andrada, já apresentava visão
otimista do trópico e citava a Índia como modelo de sociedade
que não necessitava de escravos, por exercer a agricultura familiar
com tecnologias modernas. Índia e Brasil são países
do ancestral e do recente, do antigo oriente e do extremo ocidente.
As afinidades entre a situação indiana e a brasileira,
devido às condições climáticas e ecológicas
similares, tornam férteis os estudos comparativos do Brasil com
a Índia.
Como é o desenvolvimento da ciência e tecnologia na Índia?
A ciência e tecnologia na Índia são altamente desenvolvidas.
O país domina a tecnologia de fabricação da bomba
atômica, realiza pesquisa espacial, apresenta avanços expressivos
no campo da microeletrônica e das novas tecnologias de comunicação.
O crescente setor da informática já gerou cerca de 200
mil empregos. Em 1990, a exportação de software foi de
130 milhões de dólares, em 2000, foi de 2 bilhões
e, em 2001, alcançou a marca de 6 bilhões, o que corresponde
a 1% do mercado mundial, com alta expectativa de crescimento devido
ao baixo custo do trabalho qualificado e a boa formação
em ciências exatas nas instituições de ensino técnico
e superior, a língua inglesa e a política de substituição
de importações, que criou ilhas de competitividade. Ao
mesmo tempo, desenvolvem-se muitas pesquisas voltadas para o aprimoramento
das condições de vida no meio rural, como por exemplo
as pesquisas do grupo ASTRA – Aplicação da Ciência
e Tecnologia às áreas rurais, desenvolvido pelo Instituto
Indiano de Ciências em Bangalore.
Por quê investir em estudar e saber mais sobre a Índia?
Buscar referências em sociedades que souberam valorizar a liberdade
e não embarcaram no consumismo insustentável pode inspirar
alternativas nesse momento histórico em que há um dilema
da espécie humana, que tem pouco tempo para se reinventar. Politicamente,
dissolveu-se a esperança nos regimes que, a pretexto de alcançar
a igualdade, sacrificaram a liberdade; também se torna mais claro
que os padrões de produção e consumo material dos
países ocidentais considerados ricos, são inviáveis
e ecologicamente insustentáveis. Isso impulsiona a busca de outros
modelos.
TEMA 2 – ECOLOGIA POLÍTICA
Quais os tesouros que a Índia tem a oferecer ao mundo?
A milenar sabedoria indiana guarda tesouros imateriais valiosos para
o futuro da humanidade, na forma de valores duradouros, como os da não
violência, respeito à diversidade, tolerância, paciência.
O princípio da não-violência é um dos pilares
da civilização indiana e influencia o comportamento individual
e coletivo. Os baixos índices de violência na Índia
estão associados ao efeito combinado de políticas redutoras
de desigualdades, com o cultivo de valores e princípios como
a ahimsa (não-violência); a crença no karma (lei
que rege a repercussão das ações positivas e negativas
em nosso próprio destino); e a aparigraha (desprendimento em
relação às coisas materiais).
A Índia é um país multicultural, com trinta diferentes
troncos lingüísticos, centenas de dialetos, além
de várias religiões. A diferença não é
apenas respeitada, mas também estimulada. Por sua diversidade
cultural e política e sua formação histórica,
a Índia é uma nação multinacional. Diversidade
social, cultural, psicológica, além da biodiversidade,
caracterizam a sociedade indiana cujo lema é Unidade na diversidade.
A Índia é celeiro e campo fértil para idéias
e propostas globalistas, mundialistas e voltadas para o federalismo
mundial. O poeta prêmio Nobel, Rabindranath Tagore, observou:
“O que a Índia já foi, o mundo todo é agora.
O mundo todo se está tornando um único país por
meio das facilidades científicas.” À diferença
dos países europeus, que precisaram colonizar a África,
Ásia e América para dali extrair recursos com os quais
se sustentar, a Índia nunca foi expansionista. Pelo contrário,
acomodou e hospedou os imigrantes que chegavam.
Sendo uma sociedade milenar, a pressa é pouco valorizada. Um
grafite urbano em uma parede de Madras dizia que “Quem perdeu
a paciência perdeu a batalha”. Esses valores profundos e
construtivos emergem da pobreza material e isso é simbolizado
pela flor de lótus, que brota do lodo, pura e bela.
Como se aplicam esses valores à prática política?
Tolerância, receptividade e respeito à diferença
permitiram aos indianos absorver influências de outras civilizações
e incorporá-las à própria cultura, sem se deixar
aniquilar e sem esquecer seus antigos valores. A Índia tem tesouros
no campo da ecologia política, a exemplo da sabedoria que desenvolveu
para lidar com os conflitos. Aplicados à política esses
valores são muito efetivos, como atestou a ação
do Mahatma Gandhi, que buscou na filosofia milenar indiana os conceitos
básicos da ahimsa ou não violência, e da satyagraha,
ou a realização de experiências com a verdade, que
aplicou na luta pela Independência da Índia e que foram
politicamente eficazes.
E como esses tesouros podem ser aproveitados pelo Brasil?
A civilização milenar indiana se mostrou sustentável
ao longo da história e acumula um patrimônio valioso de
saberes que se refletem na vida prática, nos hábitos de
consumo, nos mitos em que se baseiam o imaginário coletivo e
o individual. Tais saberes são particularmente valiosos para
o Brasil, país que compartilha com a Índia a condição
de grande nação tropical da Terra. Podemos buscar naquele
passado distante elementos de tolerância, visão global
e cósmica, necessários para a civilização
sustentável do futuro.
Quais são outros conceitos básicos para se compreender
a Índia?
O conceito de dharma é central para compreender a civilização
indiana. Dharma é um substantivo proveniente do sânscrito
que significa sustentar, carregar: “É a lei, aquilo que
sustenta, mantém unido ou erguido.” Esse é um conceito
instigante, com muitos significados, pouco conhecido no ocidente e muito
valioso para um mundo que quer ser sustentável. Baseada no seu
dharma, aquela civilização soube sustentar-se por milênios
e pode oferecer contribuições valiosas para um mundo que
enfrenta impasses ligados à viabilidade da sobrevivência
de nossa espécie. A teosofista Annie Besant expressa essa idéia
com sensibilidade feminina, quando observa que “ao passarmos os
olhos pela história das nações, podemos sentir
ressoar da boca coletiva do povo esta palavra que, expressa em atos,
constitui a contribuição de cada nação para
uma humanidade ideal e perfeita. Para o antigo Egito, tal palavra foi
Religião; para a Pérsia, Pureza; para a Caldéia,
Ciência; para a Grécia, Beleza; para Roma, Lei, e para
a Índia - o mais velho de seus filhos -, para a Índia,
Deus concedeu uma palavra que a todas resumia, a palavra Dharma. Eis
a palavra da Índia para o mundo.”
Qual a diferença entre a democracia dos direitos e a Dharmacracia?
No pensamento ocidental, as referências dominantes são
de origem greco-romana, como a democracia dos direitos. Pela constituição,
o Brasil é um estado democrático de direito. O filósofo
político J. Habermas, em artigo recente na Folha de São
Paulo, expressa as tensões que desafiam o estado democrático
de direito, especialmente com o terrorismo do início do século
XXI. Encontramos na filosofia indiana idéias muito mais profundas
e que vão muito além dessas, ao propor que os estados-nação
e a democracia dos direitos não constituem o ultimo estágio
da evolução política da humanidade. Numa visão
prospectiva, voltada para o futuro, é preciso que os filósofos,
pensadores, cientistas políticos e os próprios políticos
abram sua visão de mundo para outro repertório, fora dos
trilhos do pensamento ocidental. Realizar um esforço de compreensão
transcultural é necessário para se promover uma real aproximação
entre essas duas civilizações. Sri Aurobindo observou
que “tanto direitos como deveres são idéias européias.
Dharma é a concepção indiana na qual direitos e
deveres perdem o antagonismo artificial criado por uma visão
do mundo que faz do egoísmo a raiz da ação, e restabelece
sua profunda e eterna unidade. Dharma é a base da democracia
que a Ásia deve reconhecer, porque nisso está a distinção
entre a alma da Ásia e a alma da Europa. A ‘dharmacracia’
vai muito além da democracia que se pretende defensora de direitos
e que se busca nos regimes políticos ocidentais mais abertos.
Como Você tomou conhecimento do pensamento político e social
de Sri Aurobindo?
Na primeira vez que estive em Nova Délhi hospedei-me no India
International Centre, local onde se realizava uma palestra de A.B. Patel.
Sua fala me impressionou e visitei-o, algum tempo depois, em Pondicherry,
onde dirigia uma ONG chamada World Union. Ele convalescia de um enfarte
e me introduziu ao pensamento prospectivo desenvolvido por Sri Aurobindo,
e aos livros O ciclo humano, A guerra e a autodeterminação
e O ideal da unidade humana. . Em O ideal da unidade humana, estudou
os impérios e as nações, com sua formação
e estágios de desenvolvimento; antecipou a unificação
da Europa; abordou as possibilidades de um Império Mundial e
as enormes dificuldades no caminho em direção à
unidade internacional; tratou também dos princípios para
uma confederação livre de nações e as condições
necessárias para que ocorresse tal união mundial livre.
O tema da guerra e da autodeterminação dos povos é
abordado no terceiro livro dos pensamentos políticos e sociais
que integram sua obra completa, editada em trinta volumes por ocasião
do centenário de seu nascimento, em 1972.
Quais as linhas básicas do pensamento político e social
de Sri Aurobindo?
Tendo vivido tanto no Ocidente como na Índia, Sri Aurobindo
estudou o passado, visualizou cenários para o futuro e avaliou
as várias possibilidades para alcançar a união
mundial. Sri Aurobindo chamou a atenção para o papel crucial
do terceiro dos grandes princípios proclamados pela Revolução
Francesa, a fraternidade. Disse que "a fraternidade é a
chave para o triplo evangelho da idéia de ‘humanidade’.
A união de liberdade com igualdade só pode ser alcançada
pelo poder da fraternidade humana e não pode ser fundada em qualquer
outra coisa" . Para Sri Aurobindo, as crises políticas,
econômicas, culturais que atravessamos são expressões
de uma crise maior, a crise da espécie humana dentro de seu processo
evolutivo; o próprio ser humano é um ser em transição,
que ainda deverá evoluir física, mental e espiritualmente
e pode vir a ser ultrapassado por nova espécie. Esse pensamento
influenciou a construção da cidade internacional de Auroville,
que propõe-se a ser um local de paz, harmonia e concórdia,
com base na idéia de que a espécie humana não é
o último passo da evolução. Considerando–se
a história passada, pode-se imaginar que a humanidade não
chegou ainda ao último estágio da sua evolução
política, com as democracias e os estados-nação.
A globalização econômica e a integração
global pelas comunicações sugerem que as relações
políticas ainda tem uma longa evolução pela frente,
até que a espécie humana consiga encontrar o seu caminho
e superar as crises e impasses que a sua ação provoca.
A Ecologia política pode ser vista como um componente cada vez
mais estratégico nessa fase de evolução da humanidade.
O que é a Ecologia política ?
A ecologia política estuda as relações de poder
entre os diversos atores sociais e como essas relações
determinam as escolhas, as prioridades e as tomadas de decisão.
Desenvolve métodos preventivos ou corretivos de lidar com os
conflitos de interesses, em torno da apropriação dos recursos
naturais pelos diversos países ou grupos sociais. À medida
que os recursos naturais se esgotam ou tornam-se mais disputados, os
conflitos de interesses tendem a se acirrar. Caso não sejam cuidados
proativamente, tais conflitos podem levar à eclosão da
violência ou agravar injustiças sociais.
Cada ator social e institucional, na arena do meio ambiente, tem papéis,
atribuições, competências e responsabilidades; tem
interesses convergentes com outros, em certas circunstâncias,
e que se opõem e conflitam, em outros momentos. Cada um mantém
com os demais, relações qualitativamente diversas: do
apoio e aliança mútuos ao confronto e a oposição
velada ou explícita e a te o conflito violento. Podem compartilhar
informações, estabelecer cooperação ou deflagrar
denúncias e cobranças, quando discordam dos comportamentos
dos demais atores.
Para ser sustentável, o desenvolvimento precisa dispor e se valer
de mecanismos e instâncias de mediação e resolução
de conflitos políticos envolvidos na apropriação
e uso dos recursos naturais em escala local, regional e global. Precisa
resolver conflitos sociais e políticos de forma não violenta
e harmonizar os diferentes valores e interesses. Precisa desenvolver
os recursos humanos e conservar os recursos naturais. O desenvolvimento
sustentável precisa aprimorar a base legal e institucional, com
organizações públicas e privadas flexíveis
e adaptativas.
Como a ecologia política pode influenciar a evolução
global futura?
A crise ecológica alerta para a necessidade de se formularem
e aplicarem regras e normas globais, para além dos estados nacionais.
Movimentos globalistas e federalistas postulam mais responsabilidade
para o nível local (cidades e municípios) e, no outro
extremo, para o nível planetário, com a diminuição
do poder e das atribuições dos Estados-Nação
que são "monstros paranóides incontroláveis,
especialmente quando submetidos a situação de pressão"
, nas palavras de Edgar Morin, pequenos demais para pensar globalmente
e grandes demais para agir localmente, nas palavras de Fritjof Capra.
Egos nacionais inflados impedem práticas de compartilhamento
e de solidariedade, já que, "para o ego, falar de fraternidade
é falar de algo contrário à sua própria
natureza" . Os Estados continuariam a ser atores, mas não
tão poderosos, pois eles têm dificuldades para se distanciar
de seus estreitos interesses nacionais e estão sendo postos à
prova. A primeira geração de instituições
voltadas para unir os países se deu por meio da Liga das Nações.
Na segunda geração, surgiu a ONU, que alguns propõem
que seja substituída por uma nova organização mundial,
composta por duas câmaras: uma casa das nações e
uma casa dos povos. Essa nova composição evitaria as contradições
entre interesses econômicos e proteção ao meio ambiente,
que fragilizaram o sistema da ONU. Para que nasça a terceira
geração de organizações mundiais, é
necessário que a sociedade civil, as comunidades locais, os trabalhadores
e comunidades indígenas tenham um papel mais importante.
Várias personalidades compartilharam a idéia do governo
mundial como passo inevitável na evolução política
humana para livrar-se do extermínio: Mahatma Gandhi, Teilhard
de Chardin, Nehru, Bertrand Russell, Churchill, Einstein, somando-se
às tradições religiosas como as da fé Bahá'i
e a autores contemporâneos de teoria política como Norberto
Bobbio, consideram inevitável a evolução política
nessa direção. Postulam a globalização integral,
não apenas comercial ou econômica, mas política,
com justiça social e saúde ambiental. A crise ecológica
torna mais aguda a percepção dessa necessidade de evolução
política e institucional.
É possível uma civilização sustentável?
O contato entre diferentes civilizações é o grande
processo que vivemos neste início de milênio. Em alguns
casos, facilitado pelo desenvolvimento da ciência e das comunicações,
esse encontro tem promovido mútua fertilização.
Trocas culturais, mudanças de valores e comportamentos, transformações
nos estilos de vida e aprendizagem são alguns de seus frutos.
Em outros casos essa interação não tem sido pacífica,
produzindo confrontos.
A civilização ocidental de base industrial se tornou dominante
em todo o mundo. Exibiu, nas últimas décadas, indicadores
ascendentes, como crescimento exponencial da população,
duração média de vida, consumo de energia, demanda
de alimentos, invenções e descobertas, desenvolvimento
de serviços de comunicação. Tudo isso poderia se
manter indefinidamente se vivêssemos em um planeta com recursos
infinitos e com ilimitada capacidade de suportar os subprodutos e rejeitos
da transformação industrial dos recursos naturais.
Mas não é bem assim. Para o século XXI, estima-se
o declínio das reservas petrolíferas, o que demandará
ajustes, queda no consumo e inflexões radicais, sob pena de colapso
do sistema econômico, social e político. A capacidade de
encontrar substitutos para essa fonte de energia, de reduzir desperdícios
e promover a conservação desse recurso estratégico
será crucial para dar sobrevida à civilização
pós-industrial. Da mesma forma como a Idade da Pedra não
terminou por falta de pedras, também a era do petróleo
não deverá findar por falta de petróleo, mas sim
pelas conseqüências ambientais nefastas da exploração
e uso desse recurso natural.
Crescimento, apogeu e declínio são parte da evolução
das civilizações: a egípcia, que se iniciou há
mais de três mil anos antes de Cristo, atingiu seu apogeu no primeiro
milênio antes de Cristo e declinou até o início
de nossa era; a grega, importante matriz da civilização
ocidental, teve seu apogeu no século V antes de Cristo.
Houve civilizações sustentáveis na história
da espécie humana. Algumas civilizações orientais
tiveram a capacidade de perdurar desde a Antigüidade mais remota,
muitos milênios antes de Cristo, e de suportar sucessivas ondas
de influências e de invasões externas. Nutriram-se e fortaleceram-se
com a energia dessa dinâmica.
Os princípios que permitiram a longa vida e duração
dessas civilizações incluem noções úteis
para a civilização sustentável do futuro. Entre
eles, há os que embasam comportamentos de pouco impacto no meio
ambiente. Esses princípios são contrários a tudo
que causa sofrimento ao homem e à natureza. A dinâmica
da ascensão e queda das civilizações depende, entre
outras condições, de sua capacidade de relacionar-se de
forma sustentável com o meio ambiente.
A Ásia é um continente fértil em exemplos, como
a civilização chinesa e a indiana. Esta última
tem sido capaz de auto-sustentar-se há mais de cinco mil anos,
com fases de relativo declínio e de relativo apogeu, em função
dos ciclos sucessivos de influências, com as migrações
de vários povos e as invasões de seu território.
Nas civilizações egípcia ou grega, há deuses
mortos, esfinges, pirâmides, acrópole, Zeus, Hera, Afrodite.
Há ruínas hoje visitadas como atração turística
que retratam a grandeza do passado daquelas sociedades. Na Índia,
deuses milenares são cultuados no século XXI, e templos
construídos há milhares de anos são freqüentados
até hoje e utilizados com sua função religiosa
original. Culturas indígenas sustentáveis e referências
externas de sociedades milenares, como a indiana, podem ser fontes de
valores, informações, conhecimento e sabedoria essenciais
para criar uma base sólida para a civilização ecológica
e socialmente sustentável do futuro, que poderia substituir o
atual modelo, insustentável.
Na sua visão, que papel está reservado ao Brasil na civilização
do século XXI?
Temos recursos naturais renováveis, grandes espaços,
respeito à diversidade, tolerância étnica, disposição
para uma cultura holística voltada para a paz. Essas qualidades
poderão ser úteis na criação de uma civilização
tropical diferenciada na América Latina, e também na construção
de uma nova civilização para o Terceiro Milênio.
O Brasil se europeizou com a descoberta pelos portugueses e se africanizou
entre os séculos XVI e XVIII com o tráfico negreiro. Nesse
período, se desindianizou com a matança dos índios.
Com a vinda de Dom João VI e a missão francesa, afrancesou-se.
Nas migrações pós-escravatura, achinesou-se, italianizou-se,
niponizou-se, adaptando-se ao temperamento, maneira ou estilo de cada
um desses povos que formam a raça brasileira. Além de
globalizar-se e internacionalizar-se no século XXI, o Brasil
ainda precisa indianizar-se, trazer o tempero desse país do Oriente
com o qual tem poucas relações. Ao se indianizar, estará
certamente se abrasileirando de maneira mais plena, completando o cadinho
de contribuições culturais que compõem sua civilização.
TEMA 3 - ECOLOGIA INTERIOR E ECOLOGIA ENERGÉTICA
Como se pratica na Índia a liberdade individual?
Lia Diskin observou que “A Índia é o maior exemplo
de liberdade de pensamento que a humanidade produziu – na Índia
ninguém foi obrigado a tomar cicuta por causa de suas idéias,
nem foi crucificado pelas suas pregações”. Comportamentos
individuais extremos, que seriam considerados loucura no Ocidente, são
socialmente tolerados na Índia, como sinais da busca de ligação
com o sagrado. A Índia cultuou e promoveu o indivíduo,
e respeitou os comportamentos mais estranhos, facilitando os caminhos
para o desenvolvimento interior de cada ser humano, com liberdade de
pensamento, expressão e ação. Os sadhus, que circulam
nus pelas ruas, os faquires, que mortificam o corpo de forma radical,
os sanyasins, que renunciam aos confortos materiais, são exemplos
da diversidade de caminhos e escolhas pessoais socialmente aceitos e
valorizados. A sociedade nutre aqueles que abandonaram o mundo material
para se dedicar a essa busca.
O que o impressiona na psicologia indiana?
Para cada termo de psicologia em inglês há quatro em
alemão e 40 em sânscrito, o que atesta a profundidade e
complexidade do pensamento psicológico indiano. A Índia
criou e cultivou tradições espirituais que priorizaram
o autoconhecimento e um estilo de vida não agressivo em relação
ao ambiente natural e social; desenvolveu verdadeira tecnologia de aprofundamento
interno. Aprimorou a subjetividade para desenvolver as práticas
de respeito ao meio ambiente, já que nela está a raiz
do consumismo, da pressão sobre os recursos naturais e da deterioração
global da biosfera. A psicologia indiana desenvolveu o conhecimento
dos centros energéticos ou chakras, cad aum deles associado a
uma parte do corpo humano: desde os mais básicos, da segurança,
a sensualidade e o poder, até o quarto centro energético
que se refere ao amor e a suas formas altruístas; o quinto chakra
se refere à inspiração poética e à
criatividade; o sexto integra o conhecimento intelectual, mas também
intuitivo e extra-sensorial; o sétimo centro energético
se refere ao estado transpessoal, de êxtase ou de consciência
cósmica. Psicólogos e pensadores como Pierre Weil estudaram
detalhadamente esse sistema milenar, que é um guia para a psicologia
mais avançada.
Como a evolução da vida individual é concebida
na Índia?
A filosofia indiana no Kamasutra postula que em cada fase da vida o
indivíduo valoriza aspectos específicos: na primeira fase
(artha) são considerados importantes a realização
profissional, a segurança emocional, econômica e social
e o reconhecimento pela competência no trabalho. Na segunda fase
(kama), as formas de prazer sensorial, intelectual e estético,
bem como a satisfação dos desejos sensuais, as relações
afetivas, a constituição de família, a cooperação
e a solidariedade. Na terceira fase (dharma), prevalece a vontade de
prestar um serviço à sociedade e à espécie,
valorizando-se a ação desinteressada e o trabalho voluntário.
O sucesso profissional já não é tão importante
nesse estágio. Dharma é aquilo que deve ser feito e, ao
cumprir a tarefa que lhe cabe, o indivíduo aceita seu destino
e missão e reconhece aquilo para o que foi destinado. Finalmente,
na fase mais madura da vida, caminha-se para a iluminação,
a liberação ou a realização plena, moksa,
ao descobrir que segurança e satisfação podem ser
encontradas dentro de cada um.
Como a Índia desenvolveu a inteligência espiritual?
Migrações, invasões e também as forças
naturais (como o clima incerto das monções) desenvolveram
no povo do subcontinente indiano um raro sentido de espiritualidade
e de rendição às forças superiores que condicionavam
seu destino e de que dependia sua sobrevivência. Desenvolveram
nele elevada inteligência espiritual relacionada à sua
história social e econômica. É dessa inteligência
que vem a habilidade para lidar com impasses e crises. Entre os sinais
de inteligência espiritual estão elevado grau de autoconhecimento,
independência para seguir as próprias idéias, flexibilidade,
relutância em causar danos aos outros, capacidade de enfrentar
a dor e de aprender com o sofrimento, de se inspirar em ideais elevados,
de aplicar princípios espirituais no dia-a-dia, de estabelecer
conexões entre realidades distintas. A inteligência espiritual
ajuda a encontrar sentido na vida, paz e tranqüilidade.
Como se manifesta o consumo sustentável na Índia?
Por causa de sua enorme população, a Índia teve
que desenvolver uma inteligência ecológica, pautada pela
adoção de padrões de consumo compatíveis
com os recursos naturais disponíveis, ou em outras palavras,
padrões de consumo sustentáveis. As questões ambientais
e tecnológicas na Índia estão conectadas a outros
campos, já que ciência e tecnologia são inseparáveis
dos valores culturais, da mitologia religiosa, das manifestações
artísticas que expressam esses valores de uma cultura integrada,
pouco fragmentada. O uso intenso do corpo e sua codificação
sofisticada fazem com que se economizem mobiliário, talheres,
utensílios diários e, conseqüentemente, os recursos
naturais necessários para produzi-los. Muitas florestas deixam
de ser cortadas, muita energia deixa de ser consumida, muita água
é economizada em um ano, pelo fato de muitos objetos materiais
não serem usados por aquele um bilhão de pessoas, que
possuem hábitos de consumo frugais. Existe na Índia uma
relação cíclica e não linear com o tempo.
A crença em muitas vidas e reencarnações facilita
o respeito à natureza, pois as pessoas preservam com maior cuidado
o ambiente em que voltarão a viver em vidas futuras.
Por quê é desejável o vegetarianismo?
A Índia adotou há milênios o vegetarianismo como
dieta alimentar, por razoes éticas e ecológicas. Éticamente,
trata-se de um cuidado com os seres vivos animais. O vegetarianismo
é um dos aspectos materiais do espiritualismo indiano e baseia-se
no princípio do ahimsa ou não-violência. As vacas
foram sacralizadas e o vegetarianismo é um hábito alimentar
com conseqüências positivas do ponto de vista da ecologia
energética. Ecologicamente, a dieta alimentar vegetariana poupa
espaço, água e demais recursos naturais. A quantidade
de água, a quantidade de insumos agrícolas e a área
de terra necessárias para alimentar indivíduos vegetarianos
são menores que as necessárias para alimentar carnívoros.
Finalmente, eminentes ecólogos ocidentais, como o professor E.
O . Wilson, de Harvard, tem superado as noções ligadas
ao ambientalismo superficial e apontado para a necessidade de adotar
atitudes e comportamentos na linha da ecologia profunda, adotando estilos
de vida sustentáveis. Em seu livro recente, “O Futuro da
vida”, Wilson expressa as vantagens da possibilidade de renunciar
ao consumo de carne: "Se todos aceitassem uma dieta vegetariana,
o atual 1,4 bilhão de hectares de terras aráveis seria
suficiente para produzir alimentos para 10 bilhões de pessoas"
Isso significa adotar hábitos alimentares que haviam sido adotados
há milênios na Índia. Esse é um exemplo do
reencontro da ciência moderna com tradições milenares.