A guerra e o meio ambiente
As atividades humanas produzem impactos ambientais
sobre o ar, a água de superfície ou subterrânea,
o solo, o subsolo, a paisagem natural, o ambiente construído,
o ambiente sócio-econômico e cultural. Causam impactos
no ambiente a ação produtiva por meio da indústria,
da mineração ou da agricultura; a ação individual
ou coletiva, pública e privada e a ação militar.
Para muitas das atividades humanas, a consciência ecológica
ajudou a criar práticas de redução ou de minimização
desses impactos negativos. Leis foram aprovadas e instituições,
estruturadas. Criaram-se procedimentos e ferramentas como a avaliação
de riscos ambientais e o licenciamento ambiental, que contribuem para
prevenir, reduzir ou mitigar tais efeitos ambientais negativos. Entretanto,
esses cuidados ainda não foram estendidos à atividade
humana potencialmente mais degradante e devastadora do ambiente: a atividade
da guerra. Dentre todas, essa é a que tem o maior possibilidade
de gerar conseqüências negativas e sofrimento para as pessoas
e para o meio ambiente. “De uma maneira geral genocídio
e ecocídio sao gêmeos”, observa Ignacy Sachs.
A figura a seguir mostra alguns dos tipos de impactos da guerra sobre
o ambiente natural e humano:

O alto impacto ambiental negativo das guerras encontra-se presente
em todo o ciclo de vida dos conflitos armados: da extração
das matérias primas para a indústria de armamentos, passando
pelo uso e aplicação desses equipamentos, até a
sua disposição final, constituída pelos resíduos
atômicos, químicos e bacteriológicos. Isso sem falar
nas conseqüências funestas dos atos de terrorismo ou nos
impactos do uso de armas biológicas nas guerras convencionais
como na possível propagação intencional do botulismo,
da varíola e do antraz ou no desmatamento ocasionado pelo napalm
e outras armas de guerra. O urânio usado nas balas contamina o
ambiente com radioatividade e dissemina o câncer e outras doenças.
A contaminação dos rios e a perda de potencial de uso
do solo pela disseminação das minas terrestres, que mutilam
pessoas e animais, ou o uso da bomba de nêutrons – a chamada
“bomba capitalista”, porque destrói a população
mas preserva o patrimônio material - , são outros exemplos
da destrutividade e do potencial de devastação e contaminação
ambientais causados pelas atividades bélicas.
Além disso, ao lado do consumismo, o belicismo está
na raiz da pressão sobre os recursos naturais, transformados
pelo complexo acadêmico-industrial-militar em artefatos bélicos
de alto potencial destrutivo.
As guerras globais se desatualizaram. Proliferam hoje guerras de menor
escala, regionais, guerras civis nacionais, atos de terrorismo como
forma extrema de questionamento do poder político organizado,
conflitos interindividuais e psicológicos. O emprego da força
e da violência tem, ainda, custos psicológicos e subjetivos
importantes e nem sempre considerados, retardando ou prejudicando o
desenvolvimento do ser humano integral devido ao ódio, aos ressentimentos
e mágoas que provocam e multiplicam.
Assim, já é chegado o momento de que os princípios,
métodos e instrumentos utilizados para mitigar ou neutralizar
os impactos negativos das demais atividades humanas tenham sua aplicação
estendida à atividade da guerra. Procedimentos como as avaliações
de impacto ambiental e o licenciamento ambiental deveriam ser mandatórios
e objeto de pactos internacionais obrigatórios, visando ao bem
da humanidade, sempre que esteja em jogo a possibilidade de iniciar-se
uma ação bélica potencialmente degradadora ou poluidora
do ambiente. Isso ajudaria a desenvolver a consciência global
a respeito das conseqüências desse tipo de ação,
com a cuidadosa avaliação prévia dos seus impactos.
O licenciamento ambiental das guerras deveria contemplar, entre outros,
os impactos bióticos, antrópicos e físicos desses
eventos e, somente depois de detalhada e cuidadosa avaliação
de riscos, elas deveriam ser matéria de discussão nacional
e internacional. A aplicação rigorosa dos procedimentos
de avaliação prévia de impactos ambientais às
atividades bélicas poderia levar, no limite, à sua inviabilização,
seja pelo exorbitante aumento de seus custos, que incluiriam os necessários
recursos para recuperação da degradação
que viessem a causar, seja pela conseqüente ampliação
do tempo para a busca de consenso em torno a sua necessidade e para
seu eventual preparo. Nessa fase, inclusive, poderiam e deveriam ser
colocadas em prática todas as maneiras e técnicas diplomáticas
e de mediação e resolução não-violenta
de conflitos, com vistas a evitar os embates bélicos.
As idéias aqui expostas contêm, certamente, um forte
conteúdo utópico, considerando-se o momento histórico
presente. Mas merecem ser consideradas, posto que todas as guerras constituem
um fator destrutivo para o ambiente e para o ser humano. As guerras
só serão abolidas quando se tornarem psicologicamente
intoleráveis, da mesma forma como a abolição dos
escravos, que somente veio a acontecer quando a escravidão tornou-se
socialmente intolerável, além de economicamente desejável,
já que a libertação dos escravos traria impacto
altamente positivo para o mercado consumidor.
Na fase atual da evolução humana, a ética social
costuma seguir os valores mercantilistas e capitalistas. A civilização
ocidental norte-americana e européia, de raízes judaico-cristãs,
foi central no processo cultural do século XX, mantendo interações
fortes com praticamente todas as demais civilizações modernas.
Tais interações, entretanto, têm sido mais conflituosas
do que cooperativas, em decorrência da história de colonização,
imperialismo e dominação, que procurou garantir o acesso
e apropriação de bens necessários para abastecer
essa civilização com recursos naturais provenientes de
todo o planeta e demandados para alimentar padrões de consumo
e estilos de vida que se mostram insustentáveis e que dependem
de grande quantidade de bens materiais. Atualmente, a crescente pressão
sobre os recursos naturais como a água, a flora e fauna, o solo,
as florestas e especialmente o petróleo, base da matriz energética
da civilização contemporânea, potencializa também
o risco de conflitos e de propagação da violência
entre as sociedades e grupos sociais.
Nesse contexto, o próprio poder de degradação
ambiental das guerras poderá tornar-se um fator adicional que
acabará por levar à sua abolição, como forma
de resolver conflitos, num estágio mais avançado de evolução
da espécie humana.
Maurício Andrés Ribeiro